Mais um João que a estrela não brilha.

Mais um João que a estrela não brilha.

Gonçalense como eu, de comunidade como eu, cheio de sonhos como eu… No momento em que passamos por uma pandemia na qual a recomendação é permanecermos em casa para ficarmos seguros, um jovem, adolescente, 14 anos, tem a vida ceifada enquanto brincava com primos na “segurança do lar”. Como se já não fosse o bastante, o seu corpo desaparece por mais de 12 horas e é encontrado no IML por iniciativa de familiares. Mais um direito a existência cancelado. Mais um futuro assassinado. Menos um brasileiro. Menos um artista, médico, jogador de futebol, padeiro, eletricista, advogado, vai saber. A nação que lhe pariu não o permitiu viver mais que uma década e meia para descobrirmos. “Demorou, mas a sua pátria mãe gentil conseguiu realizar o aborto”. O que aconteceu? Encontrava-se na hora e local errado. Hora, quaisquer uma. Local, pele preta, favela, comunidade, Brasil. Dizem que quanto mais próximos da tragédia mais a sentimos. Talvez seja verdade. Pois o fato de o JP, vou me permiti chamá-lo assim, ser do Salgueiro, favela a qual já visitei, e ser conterrâneo, fruto do mesmo chão que eu, fez-me escrever estas linhas. Linhas essas que não foram escritas quando outros JPs, de outras favelas, outros bairros, outras comunidades, outras cidades, outros estados, e a mesmíssima cor de pele, tiveram semelhante fim. Linhas as quais não fariam sentido se vivêssemos de fato num país de todos. E todas. Linhas que deveriam desaparecer das time lines e noticiários, não como resultado de negacionismos ou poeiras jogadas para baixo dos tapetes e sim por não retratarem mais as realidades. No entanto, este ainda é um sonho distante. Possível de ser sonhado por muitos de nós pelo fato de estarmos vivos, privilégio básico não mais desfrutado pelo menino João Pedro. Nos resta trabalhar, lutar e insistir para que em breve cheguem os tempos nos quais todos os jovens pretos favelados brasileiros possam ter o mesmo nível de futuro daquele jovem preto favelado, também do Salgueiro gonçalense, que entoou e popularizou o grito que nos dias de hoje, mais do que nunca, faz-se necessário e primordial: “Ressuscita São Gonçalo!!!”

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