Isolamento visual

Isolamento visual

Como os seres humanos que enxergam com as mãos e precisam tocar e apalpar coisas e pessoas para melhor se orientar lidam com este momento de isolamento social? O desafio se torna maior para as pessoas com deficiência visual no momento em que o toque é restrito e a proximidade é evitada.

Esses dias, por extrema necessidade, precisei ir à rua e um rapaz resolveu me ajudar a distância: “Para. Agora um pouco pra frente.. Direita. Agora volta.” Senti-me um carro sendo manobrado por um flanelinha. A continuar assim, em breve lançarão um controle remoto para cegos. “Guie o seu cego sem sair de casa!” Já imagino o Joarez na Sônia Abraão: “Vamos falar de Cego Pix”.

O fato é que o cuidado em geral já tem sido bastante negligenciado de modo que não nos permite pensar na possibilidade de haver alguma política específica para orientar o nosso grupo. Não adianta falar para um cego: “Não toque nas coisas!” “Não segure nos corrimãos!” “Mantenha 2 metros de distância!” É a mesma coisa de nos pedir para ficarmos imóveis apenas respirando. Viraríamos uma Árvore. Cegozeira. Pé de cego. Sei lá. Ao invés de sermos guiados por cães, seríamos urinados por eles. Não curto a ideia.

As pessoas cegas que moram sozinhas se viram como podem. Já ouvi relatos de gente que recebe comida na porta envolta em plástico besuntado de álcool gel. Afortunados. E os que não tem condições para isso? Os cegos exploram o mundo com as mãos e isto é inevitável. Ao apertar um botão no elevador, por exemplo, há de se tatear um raio mais amplo de superfície até encontrar o local desejado. O mesmo vale para praticamente todas as outras coisas. Luvas e máscaras ajudam. Mas naturalmente a exposição é maior. É preciso ficar de “olho aberto”.

Existe também um outro aspecto bastante sinistro. Muitas pessoas cegas, por vezes, são rejeitadas pelos próprios familiares e a comunidade ao redor. Considero-me privilegiado por não ter a mínima referência do que seja isso. Mas a real é que estes indivíduos acabam se refugiando em grupos e ou instituições focadas em deficientes visuais nas quais interagem com os seus iguais, melhorando a autoestima e o lado emocional.

Chover no molhado falar sobre a impossibilidade de tais encontros nesse momento de pandemia. É de extrema relevância, portanto, nos preocuparmos com o próximo e fazermos de tudo para não infectarmos a nós e aos outros.

Importantíssimo, por conseguinte, valorizar as pessoas que estão passando por este período ao nosso lado. Enxergue você ou não. Há muitos sem quaisquer problemas visuais restritos a passar por esses dias sem contato com ninguém. Por inúmeros motivos. Para aqueles que reclamam do fato de não poderem sair de casa e serem obrigados a dividir espaço com as mesmas pessoas, saibam que para alguns, com e sem visão, a quarentena está a ser um período de DUPLO isolamento social.

#fiqueemcasa

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